Número total de visualizações de página

domingo, outubro 21, 2007

O Rapto da Europa

O estigma do resultado dos referendos ao Tratado Constitucional Europeu, na França e na Holanda, vieramamolecer ainda mais a dinâmica construtiva social da União Europeia, em que o cepticismo é cada vez maior.
Apesar de algumas restrições de debate e consequentemente inclusão na Convenção para o Futuro da Europa, pode-se porém, considerar um documento orientador muito positivo.
A União Europeia se verdadeiramente quer ter sucesso, e futuro promissor, tem que abandonar a tese pura e dura de “Europa de directório”, e concentrar-se também na noção de “Povos da Europa”. E se respeitar, um pouco dessa designação, a prossecução de medidas que fomentem o bem-estar dos seus povos, e estar ciente das preocupações sociais é fundamental que tenha atenção às razões verídicas da negação dos referendos anteriormente referenciados.
A discussão sobre o sucessor do Tratado de Nice, como é evidente, já não responde eficazmente às novas necessidades estruturais e politicas da União, e que agora se pretende que seja reformador. Ao que parece, na cimeira informal de Lisboa de 19 de Outubro passado, foi alcançado o primeiro passo para que o novo tratado europeu venha a ser uma realidade, culminando com a ambição da presidência portuguesa da União Europeia, para que este documento seja baptizado de Tratado de Lisboa.
Foram assim ultrapassadas as divergências provindas do governo britânico, e sobretudo do conservador governo polaco, que no fundo reflectem alguma ansiedade que reina no seio da União.
As intervenções do governo polaco revela ainda implicações mais profundas, no campo meramente politico, na sua anterior recusa em aceitar a mudança do sistema de votos no Conselho Europeu, mas o mais grave é usar uma argumentação digna da guerra fria, tendo como arma de arremesso, os horrores da II Guerra Mundial, especialmente a perspectiva de que sem o genocídio nazi aos judeus polacos, a sua população seria actualmente muito maior, e em consequência, teria mais peso politico no Conselho Europeu.
Realmente é mais um absurdo politico do governo de Kaczynski & Kaczynski, como também é o facto mais recente, de vetarem o dia europeu contra a pena de morte, em virtude da sua concepção ideológica contra a interrupção voluntária da gravidez.
Este antagonismo politico solitário da Polónia dá que pensar!!!
E quando se reporta que a União Europeia fala a uma só voz na sua politica externa, é mais uma falácia que se quer extrapolar a realidade, e o único exemplo clássico desse anseio será porventura, o conflito israelo-palestiniano, aonde há uma consciência una dos governos europeus de que o dialogo é a melhor tentativa de envolver estes dois povos do Médio Oriente na paz possível, é o caminho que deve ser seguido pela União Europeia.
E o caso emblemático dessa fricção, dessa descoordenação da politica europeia, é a tão propalada Cimeira UE-África, com a recusa de Gordon Brown em participar, se o ditador Robert Mugabe (mas há outros) vier a Lisboa, havendo o rumor de outros Estados-membros vierem a integrar o boicote britânico, como seja a República Checa e alguns países nórdicos, em claro contraste com a vontade de franceses e alemães.
O novo tratado que apesar de tudo ainda está na forja, e no fundo não passa de um “copy and paste” das matérias mais relevantes do defunto Tratado Constitucional Europeu, no que concerne na atribuição do cargo do Presidente da União Europeia e de um “ministro dos negócios estrangeiros”, que terá a designação de Alto Representante.
Estas são razões para que não haja uma verdadeira confiança nos destinos da União, pois está-se a pensar mais para fora do que para dentro, isto é, nos comuns cidadãos europeus.
De facto, essa concepção internacionalista da União Europeia, é apenas ilusória, pois como é visível, não existe uma verdadeira linha de orientação comum, só vontades e estratégias individuais.
Os desafios dentro da União já são enormes em termos políticos e sociais, e a questão da determinação do estatuto final do Kosovo, poderá ser a “ponta do iceberg” da Europa, aonde os Estados-membros estão imensamente divididos. Uns pela independência do Kosovo, influenciados pela atitude dos Estados Unidos, de dividir para controlar melhor, e tendo em vista todas as consequências que poderão aí advir, nomeadamente no que diz respeito à nova regulamentação do direito à autodeterminação e todas as relações jurídicas relevantes que estarão agora presentes, como é o direito de propriedade, e nesse domínio em especial, Chipre, já advertiu que mesmo a Sérvia reconheça a independência do berço da sua nacionalidade, estará diametralmente contra essa eventualidade, é bem revelador dessa profunda divisão da Europa.
Tal como o quadro do “Rapto da Europa”, do pintor italiano renascentista, Tiziano Vecelli, observando toda a sua dimensão visual e de introspecção, dá vontade de analisar os motivos contemporâneos, porque razão querem rapinar a essência da beleza da Europa, um pólo mundial de uma nova ordem consciente de prosperidade dos seus povos, tendo como características principais a liberdade, abertura de espírito e o respeito pelas instituições democráticas, em vez de perpetuarem em aventurismos viciados, e quase personalizados, exemplificados pela correria louca do touro de Tizziano.