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quinta-feira, novembro 24, 2005

A invasão turca

Muito se fala da crise de valores, de identidade e de referências da sociedade portuguesa, que por sua vez está a provocar a actual crise sócio – económica. A agravante de toda esta realidade dura e crua, não é exclusiva de Portugal, e está também afectar as instituições da União Europeia, em consequência da ausência de líderes fortes no seio dos Estados-membros, em especial no eixo franco-germânico.
Seja ele considerado bom ou ruim, a dinâmica imprimida pelas duas maiores potências da Europa Continental, resultou num aprofundar sistemático das instituições comunitárias, sobretudo até ao início da década de 90.
Nessa altura singravam na cena política internacional personalidades como Jacques Delors, François Mitterand ou Helmut Kohl, havia sem dúvida alguma referências para os seus povos, que credibilizavam os seus esforços europeístas.
Hoje, isso não acontece, pois pura e simplesmente não existem individualidades idóneas que dêem confiança no que concerne à unidade europeia, muito pelo contrário, a vontade e o desejo dos povos da Europa são constantemente vetados por uns meros eurocratas, sem qualquer tino de responsabilidade no que diz respeito ao futuro concreto de todos os europeus.
É portanto discutíveis até que ponto as decisões políticas comunitárias terão o efeito pretendido, quando existe pouca confiança entre os cidadãos e os eleitos. É essa fraqueza nos alicerces da Europa que pode a médio prazo ditar a ruína da construção europeia, sobretudo com a inclusão de assuntos da primeira ordem da discussão e na implementação de acções concretas que nada fomentem o desenvolvimento dos europeus, como é o caso da adesão da Turquia!
De facto, a colocação da questão da adesão da Turquia em cima da “mesa” das preocupações da Comissão Europeia, só significa uma coisa, em especial, com os resultados negativos dos referendos na França e na Holanda, no concerne à ratificação do novo tratado da Europa – a falta de respeito pelas inquietações desses dois povos fundadores da ora União Europeia, e bem como a ausência de pudor em cumprir as promessas que foram feitas após esses dois “terramotos” políticos, ou seja, de repensar o modelo social da Europa, porém, o mais gravoso de todos esses lobbies pró – Turquia, que está mais visível nos membros que lideram as instituições e dos governos de alguns Estados-membros é de branquearem da História o genocídio turco sobre milhões arménios, a opressão sobre os Curdos, a invasão de Chipre, o militarismo que fere a liberdade e a democracia interna do povo turco é vista de ânimo leve.
Porquanto se essa vontade de fazer aderir a Turquia ao projecto europeu se mantiver por esses decisores políticos pouco escrupulosos, a caracterização verdadeiramente nobre e distinta da União, isto é, a liberdade e a democracia será vencida pela altivez falsa e de colocar uma questão insensata que é a religião no cerne deste debate.
Por outro lado, e porventura a Turquia venha aderir à União, oxalá que isso nunca venha a surgir, as fronteiras da Europa política deixam de existir, pois se esse país asiático, cuja sua capital está na Ásia Menor, então se é assim, porquê é que há-de recusar a adesão de todos os países do Norte de África, (o Magrebe) que há longos séculos, tal como a Turquia mantém vários tipos de relação com a Europa. E então, porquê não aceitar a entrada dos países do Médio Oriente, e já agora daqueles onde outrora estava situada a Mesopotâmia, para muitos foi berço do pensamento europeu.
À luz da pretensa adesão da Turquia, e segundo os mesmos critérios, era legitimo que Marrocos, a Argélia, a Líbia, a Tunísia, o Egipto, Israel, a Palestina, o Líbano, a Síria, o Iraque, Irão…e quem sabe se isto expandiria mais para leste ou para sul.
Aos olhos de um mero cidadão do mundo, a inclusão destes países na União seria impensável, mas atendendo ao factor histórico, o grande argumento dos defensores deste tipo de alargamento, tudo isto seria possível. No entanto o que diferencia estes países dos actuais 25 Estados-membros, não será o factor cultural, em grande medida influenciado pela religião, sobretudo pelo cristianismo, que de um certo modo veio a unificar o pensamento, os hábitos e os costumes dos europeus, com as suas devidas distinções regionais.
A alegação de que se quer apenas fazer da Europa, um “clube” cristão é falsa, porque em que a Albânia e a Bósnia, países de maioria muçulmana tiver condições e vontade para aderir à União, só que nesse caso existe um dilema regional de grande conflituosidade étnica e religiosa que atrasa a convivência pacifica dos povos dos Balcãs. Aí sim, urge a necessidade de resolver a intemperidade política e social que assola há mais de uma década esta terra da Europa.
Os Balcãs e a Turquia são a dicotomia da ampliação da União. Isto é, ou tenta pacificar e desenvolver uma região massacrada pelo ódio, de modo que o expansionismo europeu tenha continuidade e se cinja ao espaço territorial do velho continente, e que não entre numa tolice chamada Turquia que nos é culturalmente distante, corrompendo portanto a caracterização social e geo-politica da Europa.
Do ponto de vista politico e moral é inaceitável que um país que é apenas pretendente, não reconheça Chipre como nação soberana e independente, que é neste momento um Estado-membro de pleno direito, o que só revela a prepotência perante as instituições comunitárias, sendo encoberto por este cinismo pela Comissão Europeia que pretende com esta situação somente liberalizar e desregular as relações económicas, porque com a entrada da Turquia poderia aguçar o apetite dos grandes investidores em apostar neste país da Ásia Menor, deslocalizando várias unidades industriais, aproveitando uma mão-de-obra baratíssima e pouco qualificada, e ao mesmo tempo usufruir de um mercado com mais de 70 milhões de consumidores para escoarem parte da sua produção.
Vinco o facto de não se poder esquecer dos atentados contra os direitos humanos por parte do Estado turco, fora das suas fronteiras como foi o genocídio arménio ou a intolerância com os Curdos, e quer no plano interno, com a sistemática violação dos direitos básicos constitucionais do povo turco, que é o próprio alertar a farsa orquestrada pelo o seu próprio governo, aonde são as próprias organizações de defesa dos direitos cívicos a duvidarem da real intenção de um Estado altamente militarizado, que tenta apagar uma imagem de intolerância e de perseguição, tendo ao seu dispor uma importante ajuda de uma parte significativa dos políticos europeus, mas que não é corroborada certamente pelos povos da Europa, porque são estes a ultima hipótese da União ainda poder-se salvar de legitimidade democrática contrapondo aos seus políticos manipuláveis e dúbios.
Não se pode escamotear a verdade e a realidade!!
É evidente que a Turquia não sendo um país europeu definitivamente, tem tal como os países que marginam o Mar Mediterrâneo, um importantíssimo papel a desempenhar como um bom vizinho, aberto à cooperação bilateral a vários níveis, desenvolvendo-se socialmente de modo a irradicar os factores negativos que assolam a sua sociedade.
Contrariamente, ao que pensam os seus governantes, a influência do país que Ataruk fundou, desempenhará na Europa não será de acção política interna e directa, mas sim de acção externa, muito devido à sua situação geo-estratégica no Médio Oriente, e se tiver vontade poderá servir de catalizador de experiências, de acções e de esperança, em pacificar a sua região de afectividade, o mundo árabe, sendo portanto este o seu desígnio natural, e certamente terá maior abertura, dedicação e apoio das instituições comunitárias e dos europeus.

terça-feira, agosto 09, 2005

KARÉLIA E KOSOVO - DUAS TERRAS DESAPROPRIADAS DA PÁTRIA




Durante várias décadas o continente europeu não registou após a Segunda Guerra Mundial nenhum conflito beligerante oficial dentro das suas fronteiras, e que estivessem envolvidas nações europeias em acesa disputa bélica.

A guerra fratricida que fragmentou a antiga Jugoslávia, e que posteriormente se replicou com mais intensidade na Bósnia e no Kosovo, puseram fim à paz oficial que graçava na Europa, independentemente dos inúmeros conflitos e tensões sociais que um pouco por todo o espaço europeu ainda subsistem.

Muitas vezes ouvimos falar em povo sem terra, contudo na nossa Europa existem duas situações, ou melhor, duas terras desapropriadas da sua pátria – a Karélia e o Kosovo.

Situada no extremo norte da Europa, a Finlândia obteve a sua independência após longos séculos sobre domínio sueco, e a partir de 1809 subjugados pelo poder czarista da Rússia, apesar que nessa época, a Finlândia era então um Grão-Ducado da Rússia, gozava até de uma certa autonomia.

E foi através de um gesto culturalmente relevante para a afirmação da identidade nacional finlandesa, quando o médico Elias Lönnrot recolheu na parte oriental do país, na precisamente na província da Karélia, aonde o estado de conservação das canções e dos costumes dessas gentes que remontavam a milhares de anos, e cujo esse testemunho era transmitido pela forma oral, de geração em geração, surgindo até mesmo relatos das vivências desse povo desde a génese humana.

Curioso, e mais precisamente aconteceu no ano de 2003, em Penamacor, aquando da apresentação da epopeia nacional finlandesa, que foi nem mais nem menos que o produto das recolhas de Lönnrot, questionei as tradutoras desse épico para a língua portuguesa, se a guerra da independência tinha sido inspirada nos feitos dos heróis da Kalevala como Väinämöinen, Ilmarinen, Lemminkäinen, e de todos os outros, o embaixador Esko Kiuru que também estava presente nessa sessão, retirou das mãos das tradutores, o meu e-mail com as minha inquietações e dúvidas sobre a Kalevala, e esse diplomata afirmou peremptoriamente em relação a essa pergunta, que sem duvida a Kalevala tinha influenciado em muito o fomentar do sentimento nacionalista dos finlandeses.

Mas as contingências estratégicas da Segunda Guerra Mundial e o expansionismo da União Soviética de Estaline, resultou na anexação de uma parte da Karélia finlandesa durante a guerra da continuação, que foi o preço a pagar pela não submissão do valoroso povo da Finlândia à tirania soviética. Nem mesmo a mestria de grande estratega militar do Marechal Carl Emil Mannerheim evitou que uma terra tão mítica como é a Karélia fosse retirada sem dó nem piedade à sua pátria.
A injustiça continua!!!

Em relação ao Kosovo à sua desanexação tem contornos bem diferentes, pois vai-se fazendo aos poucos, como quem dilacera um cadáver, extraindo órgão a órgão ao infeliz contemplado.
A perda da Karélia finlandesa foi feita em contornos brutais e imediatos, porém, o Kosovo está a ser extirpado à Sérvia de modo também brutal e mas muito continuado.
Neste pequeno pensamento sobre estes dois contextos, o finlandês e o sérvio, e em especial para este último não tem grande significado o relato da guerra do Kosovo, ou pelo menos a não descrição cronológica e exaustiva desta tragédia.

O que merece relevância para o assunto em questão, o direito de propriedade, é este fenómeno maquiavélico perpetuado pela emigração albanesa, que subjuga a ora minoria sérvia a tratos repugnantes perante a indiferença e hipocrisia da comunidade internacional, e em especial da União Europeia, que por um lado é temente à influência dos Estados Unidos e da OTAN na região, e por outro, não ousa enfrentar o “touro pelos cornos”, ou seja, pôr água na fervura sobre a grande ferida da Europa que continua incessantemente a sangrar – os Balcãs.

É tenebroso observar os kosovares sérvios que estão prisioneiros dentro da sua própria terra, sem que nada possam fazer de modo a não continuarem a ser humilhados.
É claro que esta usurtrapassão territorial pelos albaneses para além de ser nefasta do ponto vista do equilíbrio emocional e social do Kosovo, é mais extrema pois visa construir a grande Albânia, e está a inquietar e a desestabilizar os outros países dos Balcãs.
Esta é uma prova da negatividade da emigração politizada e da falta de adaptação à cultura do país acolhedor.

A Finlândia por sua vez tinha e ainda tem que jogar em dois tabuleiros, o do ocidente, aquele que se identifica e da grande Rússia que em virtude da sua dimensão e influência terá que sujeitar-se ao dialogo, à pacificação dos povos, embora sempre sentirá esse trago amargo na boca de não ter para si a sua amada Karélia e os outros territórios perdidos para a então União Soviética.

Quanto ao Kosovo, a Europa que se afugenta com essa patologia inflamada, tem que ter obrigatoriamente de possuir coragem e ousadia para a curar definitivamente ou que solucione pelo menos nas próximas décadas o estalar constante e sucessivo de convulsões étnicas e religiosas, que está a abalar significativamente o desenvolvimento social desses povos, e que reponha a verdade do Kosovo, um Kosovo que sempre pertencerá historicamente à Sérvia e não a uns abutres vizinhos perversos.

O Rumo da Europa


A escolha da actual comissão europeia tinha como pano de fundo o antagonismo entre a esquerda e a direita – o partido socialista e o partido popular europeu. Após várias tentativas frustradas para escolher o líder da comissão, chegou-se a um certo momento em que essa luta encontrava-se confinada a dois portugueses – António Vitorino, o então muito prestigiado comissário europeu, e no outro lado da barricada, Durão Barroso, o então primeiro ministro português.
Após conturbadas cenas no Parlamento europeu para tentar aprovar a comissão europeia de Durão Barroso, que tinha abandonado o cargo de governante de Portugal, posição essa que foi outorgada pelo povo português, passando assim a “perna”, a António Vitorino, em virtude do enfraquecimento dos socialistas europeus nas ultimas eleições para o Parlamento Europeu.
Se ao tempo os dois homens podiam ter perspectivas diferentes quanto à orientação da União europeia, pelo menos, no campo da ideologia política, hoje, pouco tempo depois do “terramoto” político francês, Durão Barroso, ou melhor, José Manuel Barroso, para os amigos europeus, e António Vitorino parecem estar a convergir. Ambos dão a sensação de serem duas múmias paralíticas no concerne à resolução da morte prematura do tratado constitucional europeu.
Para estes dois senhores, uma pausa na ratificação no tratado constitucional será a melhor forma para contornar o imbróglio desta situação.
Assim, quem fala de pausa, também pode aferir-se ao termo de congelamento, mas paralisar este instrumento político e de gestão da União europeia será por quanto tempo? E qual será a sua utilidade?
Para responder a estas perguntas de retórica simples, era preciso que estivéssemos a viver num contexto que não é o actual, isto é, numa fantasia, num sonho de eurocratas.
Acordem!!!
Não é preciso repetidamente frisar que este tratado já não existe, e quem utilizar um discurso fútil e infértil da sua realidade, lançando grandes quantidades de areia ilusória, só está a contribuir para o afunilamento da caracterização do sentimento de ser europeu. Pois para combater esse declínio sentimental como a comissão europeia já reconhece, deverá no mais curto espaço de tempo procurar as razões dessa descrença e implementar políticas e acções que contrariem tal situação.
Porém, o tempo a que me estou a referir começa a contar a partir de… agora. Não há tempo para pausas, porque a vida quotidiana dos cidadãos europeus constrói-se dia-a-dia, seja a nível laboral, cultural, económico e social, e em especial, o político que agora estamos a tratar.
Portanto, não há tempo para pausas ou para coisas afins.
Muitas vezes a “opinion makers” está tão segmentada e uniformizada que se afastam da realidade.
Os extremismos invocados na defesa e na oposição deste tema em concreto, é reveladora de um certo cinismo quanto à sua verdade, à sua verdade sofismável.
Doravante, todo este processo que se desenvolveu desde a necessidade de projectar um tratado no qual estaria inserido um texto constitucional complementar às constituições nacionais de modo a corresponder às exigências do alargamento a leste e a todas as consequências provenientes dessa situação, passando pelos trabalhos da convenção para o futuro da Europa, que pela primeira vez abriu a discussão desse ante-projecto às várias susceptibilidades das instituições europeias e dos parlamentos nacionais, todavia, não teve a ousadia de ouvir mais profundamente as inquietações dos povos europeus até à sua aprovação no Conselho Europeu de Roma, realizado no dia 29 de Outubro de 2004, jamais o poderão dizimá-lo à pura inexistência e votá-lo às trevas do esquecimento. Foi muito relevante todo o trabalho dessa convenção, e é insensato deixar tanto esforço para o lixo.
Por outro lado, a dimensão do texto constitucional deixa enormes reparos a fazer. Porque, se pretende unir os povos da Europa, a certos e precisos valores culturais e universais, sendo esse o elo de ligação à União, um acto constitucional mui sui generis. E se alguns Estados-membros adoptaram o método referendário para ratificar e legitimar o tratado nos seus respectivos países, e se é efectivamente para o povo a que se dirige este conjunto de normas, dividida em quatro partes, sendo a segunda há muito conhecida, pois é a Carta dos Direitos Fundamentais da União, os mais de quatrocentos artigos são claramente desadequados para a génese do constitucionalismo europeu unificado.
As instituições europeias e os governos nacionais não devem camuflar a realidade social dos europeus, no que diz respeito ao conhecimento que têm sobre a União em que estão inseridos e do seu funcionamento, sabendo discernir quais são os seus direitos e deveres.
O critério a utilizar por essas entidades não pode continuar a ser do “arremessar” informação sem controlo, ou seja, cada Estado-membro, cada região, cada localidade tem a sua própria especificidade, e portanto, possui diferentes níveis de integração europeia, o que implica uma distinta aplicação das acções de adesão social à causa europeia.
Porventura, a elaboração deste texto tinha em consideração os cidadãos europeus. E se partirmos do princípio que este era a origem de uma nova e importante etapa de consolidação do espírito europeu, o seu conteúdo teria que forçosamente que ser muito mais simplificado e conciso.
É bem verdade que o cerne da reprovação do tratado constitucional implicou antes de mais, questões nacionais, e é precisamente esse dilema que o futuro tratado deve fazer enfoque, isto é, promover a cidadania europeia, clarificando de vez que é um complemento e não uma substituição da cidadania nacional.
Aquando da adesão dos dez novos Estados-membros, sobretudo nos meios de comunicação social muito se escreveu que era mais um sucesso da União. Ora, o tempo veio a demonstrar que tal não era totalmente verídico, e o último Conselho Europeu, foi a prova viva disso. A crise económica a que estamos a atravessar, a dimensão populacional que os novos Estados-membros vieram dar à União, e o seu atraso social, na sua generalidade, à posterior ficou bem manifestado do absurdo que foi o derradeiro ampliamento da União, sobretudo numa época de “vacas magras”.
A diversão como está a ser tratada a adesão da Turquia, é bem demonstrativo da dicotomia entre eurocratas e da maioria dos partidos políticos, e por outro lado, a população europeia em geral, e bem revelador dessa distância entre eleitores e eleitos. E perante o “cartão vermelho” dado nos referendos francês e holandês, essa temática estava bem vincada nas inquietações desses dois povos, e ao que parece pelo menos nas palavras do presidente da Comissão europeia, os sinais populares de rejeição indirecta dos turcos à União, é puramente ignorada por esta entidade comunitária, e assim mais se acentua a separação que a eurocracia prepotente e os comuns cidadãos da Europa.
Esta importante questão, que é a possível adesão de um país asiático, que vai contra a identidade europeia é bem reveladora da desorientação das instituições comunitárias ao desviarem-se de um dos mais sérios problemas internos e geopolítico bem centrado no coração da Europa – o dilema balcânico.
Este é um exemplo concreto da falta estratégia da União em projectar, preparar e inovar o futuro dos europeus, isto é, está a baralhar as prioridades, pois em primeiro lugar deveria preocupar-se com a orientação da resolução dos problemas dos cidadãos europeus, fortalecendo assim a comunidade, fomentando o espírito europeu nos seus cidadãos, em vez de canalizar uma boa parte da sua energia, numa questão acessória, duvidosa e que está a dividir os europeus, numa altura pouco aconselhável para o levantamento deste tipo de agitação.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Marés Vivas


A sociedade humana é de facto um mundo sem fim, e até no mais próspero continente do globo terrestre, a Europa, não existe, não podem existir pausas ou reflexões prolongadas, como quem está à espera do seu salvador.
Os acontecimentos vão-se sucedendo em catadupa quase incessantemente. Primeiro foram os famosos referendos fracassados ao tratado constitucional, cujos resultados puseram em estado de choque os europeístas, e sobretudo os eurocratas.
Bruxelas deveria de ser com o seu Conselho Europeu, o tónico essencial e imprescindível para limpar a face de um processo que levou vários anos a conceber, porque o Tratado de Nice já não responde às necessidades vigentes da União Europeia, porém os egoísmos nacionais prevaleceram, em especial, o de Tony Blair, encravaram ainda mais a crise europeia.
Todo este desenrolar de acontecimentos puseram nos píncaros da ribalta da política europeia, o governo britânico eurocéptico, já que os resultados dos referendos em dois dos países fundadores da Comunidade Europeia, legavam-lhe uma enorme margem de manobra para conseguir obter os seus intentos no ultimo Conselho Europeu. Acrescido a isso, o Reino Unido iria receber a presidência da União para o segundo semestre do presente ano, prometendo que solucionaria a tempestade que criou.
De facto, a nível europeu, o governo de Tony Blair estava num largo expoente de protagonismo e o acolhimento na Escócia da cimeira dos G8, adquiria certamente o estatuto do centro do mundo nessas semanas. E ficou mesmo, num misto de sangue, suor e lágrimas. Lágrimas e suor devido à vitória na organização dos Jogos Olímpicos de 2012, com uma sinistra visita do primeiro-ministro britânico na véspera da decisão do Comité Olímpico Internacional, aonde se deu uma enorme reviravolta, pois a cidade de Paris era até então considerada como a grande favorita à vitória final.
Quer no campo político como desportivo a astúcia britânica levava novamente a melhor sobre os gauleses incrédulos.
Sangue, faltava a ultima caracterização da muito popular expressão de Winston Churchill. Após largas semanas de regozijo dos “casacas vermelhas” estremeceram contudo com os mais mortíferos atentados terroristas desde a Segunda Guerra Mundial. Desde há muito que a população de Londres estava sobre stress preventivo sobre um eventual ataque perpetuado pela infame Al-qaeda, com os sucessivos avisos e comunicados das forças de segurança da capital do Reino Unido.
Mais uma vez, um insane ataque à vida de inocentes marcaram sanguinariamente o normal evoluir das suas vivências, e desta vez, o metropolitano e os emblemáticos autocarros de Londres foram os alvos escolhidos.
Embora os britânicos tenham adquirido a frieza para lidar com os mais difíceis e críticos momentos, muito cultivado aquando dos bombardeamentos nazis, ficou mais uma vez demonstrado que lutar sozinho contra o terrorismo invisível e implacável, incitado por práticas injustas e típicas do imperialismo coadjuvante propicia no futuro enormes dissabores sociais.
O heroísmo de lemas como “no surrender” que estava inscrito nas bandeiras inglesas podem incentivar o dom mais patriótico e fraterno dos súbitos de Sua Majestade, porém, quem pensar que a Grã-Bretanha pode sozinha blindar o seu território da ameaça maquiavélica do terrorismo internacional está muito bem equivocado.
Não me espanta que o lado patriótico e subtilmente generoso de ultrapassar as adversidades se possa transformar numa aberrante perspectiva aberrante e surreal . Sem dúvida alguma, o terrorismo tende a globalizar-se, a penetrar nas fronteiras sem permissão nem controlo. Portanto, urge a importância de controlar todo o tipo subversivo à liberdade dos cidadãos, e neste estádio de desenvolvimento da segurança dos povos, todos precisam de todos, e todos são um único corpo que dá vida a uma rede de protecção que se pretende impenetrável e sólida.
O contentamento pelo fim do tratado constitucional, unicamente por motivos nacionalistas e egoístas não tem razão de o ser. A constituição ou o próximo tratado da União deve concisamente velar pelos direitos e garantias dos cidadãos, e que estes verdadeiramente participem na construção de uma Europa próspera e social.
O oportunismo político dos eurocratas pode ferir muito gravemente este corpo tão sensível que se dá pelo nome de União Europeia. O acalentar da agonia deste defunto tratado por aqueles que pensam que estão a ajudar a União a sair das profundas cinzas da rejeição é pura ilusão, como foi o referendo à constituição europeia no Luxemburgo, porque desde do desferimento do golpe brutal produzido pelo cunhal francês que o famoso projecto constitucional está bem morto.
A continuação destas cenas deprimentes que é a ilusão dos próximos referendos em nada contribui para o desenvolvimento do futuro da Europa.
Não vale a pena continuar a chorar por um tratado que não está a seduzir os europeus, e que nunca foi bem introduzido à sociedade, e no que diz respeito a Portugal, com a agravante de jamais ter havido a preocupação de informar a população do que realmente estava em jogo.
O que se pretende a partir de hoje são as novas propostas tendo como inspiração ou melhor, base de trabalho, o malogrado tratado. A perigosidade de atestar os europeus com uma realidade que já não existe, com ultimatos, as ameaças dos governantes nacionais que se demitem em caso da votação referendária não seja conforme a sua pretensão roça o mau civismo e incute práticas de uma não liberdade e de não democracia.
Se é certo que não se deve precipitar nas decisões futuras, pois estão em causa a posteridade de centenas de milhões de pessoas, também é certo que a União Europeia tem o dever de fomentar o trabalho continuo na promoção de um novo tratado que seja mais fiável aos anseios dos europeus e ao bom funcionamento das instituições comunitárias pois ninguém consegue prever nem controlar as marés vivas da política mundial.