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domingo, novembro 21, 2010

BEMPOSTA ON THE ROAD - UM CONCEITO DIPLOMÁTICO


Os Descobrimentos Portugueses foram porventura a época áurea do povo português. Depois das guerras com Castela, e com a definição das suas fronteiras, a audácia e coragem dos portugueses virou-se para a conquista do mar, até então pouco conhecido, e que nas mentes da Idade Média estava impregnado de lendas fantasiosas, mistérios e medos assombrosos de uma sociedade muito fechada.
Na sua génese, o empreendedorismo e a sagacidade do Infante D. Henrique veio atestar que a pequena nação chamada Portugal veio dar novos mundos ao mundo com a descoberta de novos territórios e novos povos, até então completamente desconhecidos e de existência duvidosa aos olhos dos Reinos da Europa. Essa época gloriosa para os portugueses veio moldar o sentido da pátria, criando uma mitologia e heróis próprios, que hoje ainda estão imortalizados no povo português e no mundo.

Virando a página para o Século XXI, e situando no nosso Portugal, é bem sabida a existência de regiões que se desenvolvem económica e socialmente a vários ritmos. No extremo oposto desse nível de desenvolvimento temos o interior, mais precisamente as pequenas aldeias da província que tendem a desaparecer no tempo. Uma dessas aldeias chama-se Bemposta, que pertence ao concelho de Penamacor, distrito de Castelo Branco. A antiga Bemposta do Campo, que foi sede de concelho, concedido pelo foral do Rei D. Manuel I, em 1510.

A pequena Bemposta do Campo foi durante mais de três séculos município, gozando no seu tempo de autonomia política e jurídica, simbolizado pelo seu belo pelourinho. Contudo, o declínio populacional e de investimento parece irreversível. Mas será mesmo assim? No passado dia 15 de Março, no Museu de Harrow em Londres, deu-se início ao projecto “Bemposta On The Road”.

Mas no que consiste efectivamente o projecto “Bemposta On The Road”?

Em termos exógenos, consiste em mostrar através de uma exposição fotográfica, denominada “Bemposta – A Deep Looking”, as cenas quotidianas da Bemposta, as pessoas, o património cultural, os campos, as paisagens, isto é, os momentos peculiares desta aldeia; e em ser transportada, através de uma exposição fotográfica, para Londres, onde estará a decorrer até ao dia 11 de Maio, e que em Setembro visitará a capital do design europeu, Helsínquia, na sua universidade. No final do ano, dará um salto até à báltica Lituânia, para ficar patente na sala de exposições da Embaixada de Portugal em Vílnius.

Esta viagem promocional continuará no próximo ano e no mês de Abril atravessará o Oceano Atlântico, até à “Big Apple”, Nova Iorque. E no dia 10 Junho, dia de Portugal e das comunidades portuguesas, vai estar presente em Newark, na galeria “A Ferro”, terra de grande emigração portuguesa, para finalmente regressar à Bemposta, à sua pátria portuguesa no mês de Setembro de 2009. Toda esta itinerância, remete-nos para a parte endógena, o sopro fundamental da sua essência.

Como é sabido, uma pequena terra como a Bemposta não tem ao seu dispor recursos económicos que a possam sustentar socialmente, mas a realidade comprova precisamente o contrário. E, sendo assim, tendo como pano de fundo uma exposição fotográfica que retrata uma pequena aldeia, como maximizar esta situação?

Em primeiro lugar, temos que referir que as imagens exóticas e os planos caricatos do objecto da exibição, a fotografia, chamam muita atenção aos visitantes por um completo contraste com o seu quotidiano; por outro lado, as cenas reflectidas na “Bemposta – A Deep Looking”, e como alguém dizia na inauguração no Museu de Harrow, … «existem várias Bempostas no mundo».

Assim, a originalidade, a inspiração do autor, vêm captar nos visitantes da exposição e eventuais turistas da aldeia da Bemposta, da região e do país, um sentimento de simpatia, ternura e de curiosidade. Portanto, estamos na presença de dois factores fundamentais para o sucesso – a originalidade e a afeição. Todavia, e até porque a dimensão territorial desta aldeia em concreto é muito reduzida, apenas 10 Km2, teremos que associar ao factor de desenvolvimento local, o regional e o nacional, pelo menos em termos turísticos, nem que seja apenas pela viagem e as inerentes despesas de deslocação.

Turisticamente, parece óbvio que a pequena Bemposta pode beneficiar com este projecto o país. A dimensão cultural que aqui já foi referenciada, aliás ela é a cara do projecto, mostra uma parte etnográfica de Portugal e se a intenção é seduzir além fronteiras e fazer desta campanha uma acção de charme do país, é primordial a divulgação nos países que irão acolher a “Bemposta On The Road” de uma forma séria, objectiva e pragmática, o que deverá estar a cargo do Instituto Camões, como representante cultural de Portugal no estrangeiro, nomeadamente através dos seus leitores ou centros culturais, e em certa medida do Turismo de Portugal, aproveitando o efeito de “bola de neve”, isto é, os conhecedores e os amantes de Portugal convidarem também os seus amigos.

Se até aqui reportamos apenas à diplomacia cultural, vamos agora entrar na diplomacia económica. Bom, na verdade essa destrinça não existe; o antagonismo da diplomacia económica e cultural só é aqui chamado para fundamentar a importância de uma mera exposição no estrangeiro, que pode implicar nos vários organismos responsáveis para a divulgação do nome de Portugal papéis muito específicos e concretos.

Continuando, o dia da inauguração das várias etapas da “Bemposta On The Road” é indispensável para que a diplomacia económica funcione. Neste caso, as embaixadas portuguesas têm uma função imprescindível no sucesso desse dia.

Primeiro, a presença do representante do Estado português, o Embaixador, revela-se de grande importância, pois poderá incentivar a comparência de personalidades e de entidades que normalmente colaboram e são convidadas para estes eventos pelas representações diplomáticas portuguesas.

Em segundo lugar, e aí direccionamos para um outro factor - da cooperação com uma entidade local - a relevância da presença do embaixador de Portugal e o apoio logístico e institucional das nossas embaixadas credibilizam ainda mais a iniciativa, testemunhando, inclusive, que o Estado Português apoia efusivamente a internacionalização do país nos vários níveis de acção.

No caso concreto desta situação, foi solicitada à Associação Domvs Egitanae, aquando da inauguração da exposição no Museu de Harrow, a hora de chegada do Embaixador de Portugal, pois o Council de Harrow, iria estar presente ao mais alto nível e gostariam de cumprimentar o chefe da diplomacia portuguesa no Reino Unido. E com esse interesse por Portugal, o Council de Harrow que alberga cerca de 215 000 habitantes, praticamente a mesma população que todo o distrito de Castelo Branco, arrasta também consigo outras personalidades locais, nomeadamente da área económica, cultural e social.

Como é apanágio num encontro cuja percepção diplomática esteja presente, o momento de descontracção e de maior informalidade, de troca de opiniões descomplexadas que é sugerido pelo cocktail, e mais uma vez, para além da finalidade principal anteriormente descrita, pode muito bem ser propício para a divulgação dos vinhos portugueses, em regra oferecidos pelo AICEP Portugal Global, e para conhecimento da gastronomia portuguesa.

Esta interligação das várias entidades que promovem o nome e o prestígio de Portugal além fronteiras - Embaixadas de Portugal, Instituto Camões, Turismo de Portugal e AICEP Portugal Global, em conjugação com a entidade promotora, neste caso a Associação Domvs Egitanae, com as entidades locais acolhedoras do evento - é a chave para o cumprimento dos objectivos propostos. Tudo isto em consonância e com verdadeira vontade de semear para, num curto/médio prazo, colher os frutos apetecidos de uma eficaz e objectiva política diplomática.

Este é o conceito diplomático empregado pelo projecto “Bemposta On The Road”, em que a simplicidade aparente na organização além fronteiras de uma exposição fotográfica tem por detrás dela toda uma complexidade de objectivos, que vão desde da promoção cultural, turística, à captação de investimento económico estrangeiro, ou seja, da divulgação objectiva e moderna do Portugal Europeu. É este conceito diplomático que teremos implementar nas várias paragens da “Bemposta On The Road” e que só poderá ter pleno sucesso se houver uma real colaboração dos organismos oficiais já referenciados pois, aliás, são esses que deverão ter a maior responsabilidade na divulgação deste tipo de acções.

Este é o contributo da nossa organização, Domvs Egitanae, no melhorar da acção diplomática portuguesa, e através do exemplo da promoção de uma pequena aldeia do interior de Portugal, a Bemposta, todo o país pode beneficiar com esta “âncora”. Tal como aconteceu com os Descobrimentos Portugueses, que abriu os horizontes ao povo português, também queremos que a “Bemposta On The Road” seja o início de um marco importante para a ambição, emancipação e desenvolvimento de todo o interior de Portugal.

(Nota: Este artigo foi escrito no inicio do projecto. Houve locais mencionados neste artigo que não vieram a concretizar como foi Vilnius e Newark, e outros que não estão descritos mas foram desenvolvidas actividades como foi Tallin, Tartu e Santiago de Compostela)

in Jornal de Defesa e Relações Internacionais de 18.04.2008

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