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quinta-feira, outubro 21, 2010

A ENTREVISTA DE JOSÉ DE SALES MARQUES

José de Sales Marques foi o ultimo Presidente do Leal Senado de Macau, actual Presidente do Conselho de Directores do Instituto de Estudos Europeus de Macau e membro do Conselho Editorial da revista Raia Diplomática.
Esta entrevista foi realizada no mês de Junho do ano passado, e serviu de base para a Grande Reportagem da edição impressa da revista Raia Diplomática sobre os 10 anos da transferência da administração de Macau para a China.

Como é que têm evoluído as relações Luso-Chinesas desde a transferência da administração de Macau para a China?
As relações Luso - Chinesas têm evoluído de uma forma que eu diria exemplar a nível de relações institucionais. Desde que Macau voltou a estar plenamente integrado na China, tivemos um conjunto de aspectos positivos e de evoluções incluindo parcerias estratégicas sobretudo entre a China e Portugal. A RAEM tem tido um papel fundamental para que nessas relações. Todavia, do ponto de vista económico, parece-me que actualmente no sentido Portugal - China não têm existido desenvolvimentos que acompanhem o elevado nível de diálogo do ponto de vista político.

Referiu a importância da RAEM nas relações Luso – Chinesas. Numa altura em que o primeiro presidente da RAEM, Edmund Ho, cessa funções, o que é se espera deste novo governo?
A situação dentro da RAEM não deverá ser muito diferente porque tudo aponta para que haja uma grande continuidade nas políticas. No que diz respeito às relações entre Portugal, China e Macau essas relações vão continuar no mesmo rumo na medida em que essas relações são relações de Estado para Estado e, portanto, Macau enquadra-se dentro desse Estado. Neste sentido, depois das diversas declarações que têm sido feitas, nomeadamente pela ocasião do 20º aniversário das relações diplomáticas entre China e Portugal, tudo aponta para que o caminho seja um caminho positivo e um caminho de intensificação destas relações.

Nesse sentido, este novo governo irá ser uma continuidade da actual governação?
Sim, no entanto, provavelmente, haverá sempre algumas mudanças na medida em que a RAEM vai celebrar 10 anos de existência e há sempre momentos de balanço, há sempre algumas alterações políticas que, provavelmente, terão que ser feitas mas que não terão nenhuma influência, nenhum efeito no relacionamento entre Portugal e a China porque serão, fundamentalmente, alterações de políticas a nível interno.

Existe algum descontentamento por parte dos portugueses que trabalham para a função pública da RAEM?
Não, pelo contrário. Eu diria que, se estes 10 anos serviram para alguma coisa foi, de certeza, para que os portugueses se sintam hoje mais confiantes enquanto parte da região de Macau. O que nós podemos ver pelas manifestações de apego e de entrega que os portugueses que vivem em Macau tem actualmente será uma aproximação da própria RAEM e isto reflecte quer na vida cívica, quer na vida associativa, um contributo para que a sociedade civil possa perceber que existe uma atitude que eu diria mais positiva e mais num sentido de pertença. Mais hoje do que no passado. Se calhar no passado porque no passado muitas vezes os técnicos portugueses iam para Macau para trabalhar durante um determinado período, sempre com a ideia do regresso a Portugal. Isso não acontece tanto hoje. O que nós vemos é que existem famílias, e sobretudo jovens, que se deslocam para Macau à procura de uma vida profissional e que desde o princípio têm uma atitude e uma aposta na fixação em Macau e não, digamos, tomar Macau apenas como um ponto de passagem.

Acha que existe um desinteresse do Estado Português sobre Macau?
Bom, eu não diria que seja um desinteresse mas é muito provável, é possível, olhando para os factos, que o Estado português não tenha, enfim, tido muito tempo para se dedicar às questões de Macau. Talvez não seja só um problema de Macau. Até que ponto o Estado Português se dedica às relações com a China e com a Ásia em geral? Será que há alguma política clara sobre o relacionamento com a Ásia não falando especificamente da China? Tudo isso me parece que está ainda por definir. Não tenho visto uma linha muito clara nas relações externas de Portugal com a Ásia e, especificamente, com a China.

E o retomar da rota Lisboa - Macau? Poderia ser um sucesso dada a posição estratégica do Aeroporto de Lisboa?
Isto foi sempre um sonho das pessoas de Macau que são portuguesas como eu. Sempre sonhei que a TAP manteria uma ligação a Macau mas infelizmente isso não aconteceu e, infelizmente, o que eu vejo, agora nos jornais, nem se trata de uma tentativa para que isso aconteça. Independentemente das razões de ordem financeira e económica que possam ser argumentadas a favor desta posição, lamento imenso que, do ponto de vista estratégico, isso venha a acontecer. Acho estranha esta posição dado que a TAP, no passado, falou deste interesse em desenvolver laços com a Ásia, laços comerciais tendo em conta que a Ásia poderia ser um mercado de futuro. É estranho que hoje tenha uma posição exactamente de abandono e de voltar as costas para essa possibilidade. Não me parece, sendo um português que vive na Ásia, que seja uma boa política. Mas, obviamente, que outros argumentos poderão existir.

Acha que não será só uma politica económica?
Penso que ninguém pode virar as costas à Ásia. Se alguém me disser que uma empresa que quer ser internacional vira as costas à Ásia eu diria que, provavelmente, não estão a olhar bem para o mundo. Por isso, acho que é um ponto de vista estratégico de uma miopia completa, isto independentemente das questões económicas e financeiras que possam ser argumentadas a favor dessa solução. Do ponto de vista estratégico olhando para o mundo como ele será nos próximos 30/50 anos não faz sentido este virar de costas dadas as oportunidades do Continente Asiático.

Tais como?
Oportunidades de investimento, oportunidades de negócio e de relacionamento aos mais diversos níveis. A nível tecnológico, a nível do ensino, a nível cultural, etc. A presença, hoje em dia, de Portugal do ponto de vista cultural em Macau é quase nula. Não existem iniciativas de relevo que levem a cultura portuguesa para Macau, pelo menos a uma escala que seja significativa. No entanto, existem várias iniciativas em Macau, inclusive de associações locais, que por vezes apoiadas pelo próprio governo da RAEM, têm como objectivo levarem a cultura portuguesa a Macau. No entanto, não há um esforço orientado que envolva as autoridades portuguesas no sentido de dar e de mostrar a Macau o que é feito em termos culturais em Portugal e aquilo que de melhor existe na cultura portuguesa. Essa visibilidade não é vista.

Como analisa o trabalho do Instituto Camões na promoção da cultura e da língua portuguesa em Macau?
O Instituto Camões tem tido algum papel na promoção da cultura e da língua portuguesa em Macau, sobretudo através, embora não directamente, do Instituo Português do Oriente no sentido de divulgar a língua portuguesa para estrangeiros, ou seja, para aqueles que não são falantes ou que não tem o português enquanto língua materna. Mas o seu papel tem estado limitado a isso. Para além desse papel, que tem sido prejudicado, por vezes, por alguma instabilidade a nível da instituição, esperamos agora com as últimas alterações que essa instabilidade desapareça. Mas não deixa de ser verdade que o seu papel tem sido limitado à divulgação da língua. Volto a referir que, não há nenhuma divulgação da cultura portuguesa, não há nenhum esforço no sentido de ir mais além e de divulgar a pintura, as artes, o saber, etc. Por exemplo, não há nenhuma divulgação da língua portuguesa não há nenhum esforço digno de registo com vista a ir mais além e com vista à divulgação da pintura, das artes, do saber, etc... Não existe essa divulgação de Portugal em Macau ou na China porque, provavelmente esse tipo de realizações são dispendiosas. Não há uma política clara de aposta na China e em certa medida na Ásia em geral. Quando é feita a programação, coloca-se, tanto Macau como a China e como a Ásia em posições secundárias.

Que impacto poderia ter essa divulgação, quer para Portugal quer para Macau?
O que as pessoas de Macau conhecem de Portugal é, ainda, muito pouco. Conhecem algumas coisas. Conhecem o Fado, o Cristiano Ronaldo. Na realidade para além daqueles que são os ícones portugueses e que brilham no estrangeiro não conhecem quase nada. Não conhecem o que se faz de melhor a nível de conhecimento em Portugal. O que se faz de melhor a nível de música, o que se faz melhor a nível das artes, o que se faz melhor a nível daquilo a que podemos chamar em termos de marcados gerais e também não conhecem outras coisas como por exemplo a nível da política. O que é que Portugal pode trazer no relacionamento entre a UE, a China e a Ásia? Alguém sabe disso? Quais são os benefícios, quais são as vantagens. Todavia, Portugal tem ajudado e tem sido um bom amigo da China na UE mas se calhar pouca gente sabe disso.

Em que medida?
Tem sido um bom amigo no sentido que Portugal tem apoiado a China nas grandes questões que estão em aberto entre a China e a UE,  Portugal tem procurado introduzir um diálogo estratégico entre a China e a UE no conhecimento do desenvolvimento sustentável e tem procurado desenvolver, através do diálogo que tem tido com entidades, a chamada vertente externa. Tem procurado, fundamentalmente, criar laços de sustentabilidade neste relacionamento. Portanto, nessa perspectiva, Portugal tem apresentado, dentro daquilo que se insere na sua capacidade, no sentido em que não é um país grande, uma posição muito positiva no diálogo entre a China e Europa.

Se há essa posição e se há esse trabalho diplomático de Portugal numa aproximação entre a UE e a China, porque é que não há esse aproveitamento no campo prático através de uma estratégia?
Eu penso que há níveis muito diferentes no que respeita à abordagem e à compreensão desta questão. Uma coisa é o Governo Português, a nível de relacionamento externo, e da própria diplomacia, compreender o quão importante é esse sentido ou essa aproximação à China e à Ásia. Outra coisa são os empresários portugueses perceberem isso. Mas mais do perceberem isso é fazerem disso uma estratégia que às vezes não é fácil. Por vezes, em Portugal, as pessoas olham para a China de uma forma um pouco idónea, no sentido, fundamentalmente, dos interesses económicos empresariais e olham para a China colocando o seu interesse e procurando entrar naqueles mercados que estão mais desenvolvidos, como as grandes cidades e as grandes metrópoles. Se calhar, no âmbito da tecnologia em Portugal, seria mais útil para a China e para os empresários portugueses uma aproximação com aquelas regiões da China que não estão tão abertas a todo o tipo de competição e concorrência das grandes empresas que estão colocadas a operar na China. Estas regiões têm grandes necessidades de desenvolvimento e, provavelmente, por causa disso, apresentariam melhores oportunidades para as empresas portuguesas que, todos sabemos, apresentam limites a nível de dimensão e que podem não ter dimensão suficiente para competirem com aquelas grandes multinacionais. Com esta aposta teriam mais capacidades para operar, para competir e para concorrer, digamos, a um nível de desenvolvimento que é aquele que as regiões do Leste da China precisam assim como as regiões que estão no Sudoeste.

Ainda no âmbito da divulgação da cultura portuguesa, enquanto representante do Ministério da Educação Luso na Escola Portuguesa, em Macau, referiu, num debate organizado pelo “Hoje Macau”, em Março, que a Fundação Oriente não estava cumprir com as verbas necessárias. Esta situação permanece?
A situação referente à Fundação Oriente é muito complexa. Aquilo que eu disse tem que ser entendido num contexto mais vasto porque, efectivamente, existem alguns elementos que apontam neste sentido e que foram até divulgados na imprensa em Portugal. Todavia, a questão da Fundação do Oriente tem que ser avaliada sobre outros prismas, nomeadamente se é do interesse da Fundação e da própria Escola Portuguesa a sua continuidade neste projecto. Parece-me que sim. Apesar de tudo e de todas as dificuldades e apesar de todos os problemas e de todas as controvérsias que possam ter levantado, todavia, interessa um parceiro adequado para esse projecto. O que é preciso é que, eventualmente, a sua situação dentro desta parceria seja bem afinada, nomeadamente, no que respeita ao Ministério da Educação em Portugal.

O Instituto de Estudos Europeus de Macau, do qual o Dr. Sales Marques é presidente, tem como principal objectivo dinamizar a comunicação e as relações entre Macau e a Europa?
Sim, o principal objectivo é de fazer a divulgação da Europa em Macau e de Macau na Europa. Mas, em particular, desenvolver os laços académicos. Quando o Instituto foi criado as relações entre a Europa e a China ainda estavam numa fase pouco desenvolvidas mas desde então muita coisa aconteceu e hoje em dia há uma intensidade enorme nas relações entre a China e a Europa. Nós não estamos a ensinar nem línguas europeias nem culturas europeias, nós ensinamos a integração de quem faça esse mestrado dando um conhecimento bastante vasto do que é a integração europeia. O estudo dessas implicações e dessas componentes, por um lado, e, por outro lado, o nosso papel é também o de divulgar o estilo de vida da Europa e os valores da Europa. Aquilo que nós fazemos não se cinge às questões que estão ligadas ao ensino e ao estudo da investigação e da integração da EU. Passa, também, por questões culturais e por questões que estão relacionadas, nomeadamente, a questão da propriedade intelectual.

Depois da última Presidência Portuguesa na UE, em 2007, considerada como um sucesso tendo em conta a aprovação do Tratado de Lisboa e tendo em conta as diversas cimeiras que decorreram durante esta presidência, não podendo esquecer a Cimeira China-UE, em Pequim, na sua opinião qual foi o resultado prático desta presidência?
Eu penso que a presidência portuguesa teve um trabalho muito importante no sentido de concretizar diversas acções que estavam pensadas mas não concretizadas. Actuou de uma forma nobre e teve um esforço que esperamos ver redobrado durante a próxima presidência.

Passados quase 10 anos do fim da administração portuguesa em Macau, existe algum risco da herança portuguesa desaparecer naquele território?
Haverá sempre um risco. A herança portuguesa, fundamentalmente das pessoas em Macau pode correr riscos de desaparecer. É claro que as pedras da calçada irão ficar eternamente mas não e essa herança que nós queremos. Queremos muito mais. Queremos, fundamentalmente preservar a herança portuguesa relacionada com a cultura e com a língua portuguesa. Queremos que a língua portuguesa seja aprendida e ensinada por muitos e sobretudo para aqueles com menos recursos económicos em Macau. É preciso haver um grande esforço e fazer com que as pessoas percebam que vale a pena estudar o português como língua internacional.

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