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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

ARTIGO DE OPINIÃO DE JORGE RANGEL SOBRE A RAIA DIPLOMÁTICA PUBLICADO NO JORNAL TRIBUNA DE MACAU (07.12.2009)


“Para além da cobertura dos grandes
acontecimentos internacionais, o mundo lusófono
terá grande destaque na linha editorial da ‘Raia
Diplomática’, como poderá verificar-se na grande
reportagem desta primeira edição dedicada a Macau...”

Editorial do n.º 0 da “Raia Diplomática”

Uma nova revista portuguesa de política e actualidade internacional, intitulada “Raia Diplomática”, acaba de ser lançada em Lisboa, tendo o seu número ZERO sido distribuído gratuitamente com a edição do “Diário de Notícias” de 28 de Novembro. O local de apresentação foi o Padrão dos Descobrimentos, em Belém, na presença de membros do corpo diplomático e personalidades ligadas às áreas cobertas por este periódico dirigido por Bruno Caldeira e classificado, no seu estatuto editorial, como uma “publicação independente de qualquer poder político, económico e ideológico”, que “promove o debate plural de ideias das diversas correntes de opinião” e “tem uma visão internacional sobre a informação divulgada”.

O seu conselho editorial, que será parcialmente renovado todos os anos, integra dez prestigiadas individualidades de vários países, entre as quais Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura e do Tribunal de Contas de Portugal, e José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau.

Macau em foco na revista

O número de lançamento dá a Macau especial atenção. Além de uma referência no editorial e da chamada para a capa (“Macau, 10 anos depois do adeus”), a “grande reportagem”, conduzida por Inês Fernandes, é sobre a “Rota do Oriente via Macau”, havendo ainda um artigo de opinião meu, com o título “Macau, uma década como região especial da China”, e outro, do próprio director da revista, sobre “Os heróis de Malaca”, em que a importância do eixo Goa-Malaca-Macau é enaltecida, no contexto histórico e na actualidade.

Essa “grande reportagem” procura identificar as potencialidades económicas de Macau e sublinha o papel das instituições culturais de matriz portuguesa, concluindo que “Portugal parece ter esquecido a sua ligação à região oriental do planeta, e muito especificamente a Macau”. Citando Sales Marques e Vitor Serra de Almeida, ex-presidente da Casa de Macau de Portugal, que defendem uma presença e uma atenção maior de Portugal e uma visão estratégica mais correcta das empresas portuguesas quando pretendem entrar no mercado chinês, a jornalista explica que “de um modo geral, o nosso país deteve, em tempos idos, uma das maiores influências mundiais na Ásia, ainda que nos tempos que correm seja incapaz de valorizar essa ligação histórica e de fazer uso da mesma para potenciar o seu crescimento económico, deixando a sensação de que muito está ainda por fazer, mas também que ainda não é tarde de mais para o fazer”. A reportagem sublinha, igualmente, a “miopia completa” da transportadora aérea nacional (TAP) que, “dois anos antes da transição do território para a China suspendeu os voos de ligação semanais que mantinha com Macau”.

No meu artigo de opinião, quis, muito sinteticamente, caracterizar a primeira década de Macau como região especial da China e perspectivar os desafios e as oportunidades da próxima década. Fi-lo deste modo:

Uma década como região da China

“Macau completa, no dia 20 de Dezembro, o seu 10.º aniversário como região administrativa especial da República Popular da China. No mesmo dia toma posse do cargo de Chefe do Executivo, sucedendo a Edmund Ho Hau Wah, o até há poucos meses secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Fernando Chui Sai On, com ele iniciando-se um novo ciclo muito marcado, porém, pela continuidade de pessoas e de políticas.

Qualquer balanço correcto desta primeira década revela, inequivocamente, o sucesso da aplicação do princípio “um país, dois sistemas” e a solidez do trabalho realizado, pela administração portuguesa, no período de transição, sendo também justo reconhecer que o acordo firmado com Portugal, em 1987, foi respeitado, gozando a região, efectivamente, de ampla autonomia, sob o acompanhamento sempre atento das autoridades centrais chinesas.

Os resultados são francamente positivos, registando-se um impressionante desenvolvimento económico e, consequentemente, um invejável desafogo financeiro, pese embora a excessiva dependência em relação às abundantes receitas geradas pelos jogos de fortuna ou azar, e não obstante alguns assinaláveis acidentes de percurso e visíveis desequilíbrios que não foram suficientemente acautelados e que resultaram, em especial, do rápido crescimento verificado. A sua correcção constitui, agora, a maior prioridade, e também o maior desafio, na acção governativa nos próximos anos, estando a atenção da população, mais exigente e interventora, muito insistentemente virada, também, para o reforço de medidas de combate à corrupção e à ilegalidade administrativa.

Merece, igualmente, menção a intensificação das relações com os Países de Língua Portuguesa, desejando a China que Macau faça uso pleno desta sua mais-valia que é a ligação histórica, cultural e comercial ao mundo lusófono, cabendo também a Portugal saber tirar maior proveito deste desígnio pragmaticamente expresso e constantemente reafirmado. Foi ali que o governo chinês decidiu fazer funcionar, em permanência, o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, multiplicando-se, desde então, as iniciativas neste contexto, estendidas às mais diversas áreas, incluindo a académica e a cultural.

A classificação, pela UNESCO, do centro histórico da cidade como património mundial contribuiu, por outro lado, para garantir uma intervenção mais consequente e correcta na preservação do legado histórico e arquitectónico, ainda mais importante agora face às ameaças de descaracterização que abundantes e desproporcionadas construções ligadas aos novos operadores dos casinos vieram trazer.

De acordo com um recente documento governamental central, estabelecendo directivas e metas económicas, até 2020, para todo o vasto delta do Rio das Pérolas, uma das zonas de mais espectacular desenvolvimento em todo o mundo e onde Macau se insere, privilegiam-se, para esta região especial, o papel de plataforma de cooperação com o mundo lusófono e o de grande e diversificado centro de turismo, valorizado pela existência, exclusiva em todo o território chinês, de modalidades diversas de jogos de fortuna ou azar e orientado, complementarmente, para congressos e convenções, incentivos e grandes espectáculos. Abrem-se, assim, aos interessados locais e do exterior, renovadas e aliciantes oportunidades de participação e de investimento na próxima década.”

Este artigo é, pois, um balanço muito resumido que faço da primeira década da RAEM, podendo este tema ser mais desenvolvido e aprofundado em conferências e seminários a realizar nos próximos meses.

A revista “Raia Diplomática” terá uma periodicidade trimestral. Este número ZERO, além dos espaços dedicados a Macau, inclui um artigo de opinião de Guilherme d’Oliveira Martins (“Que Milagre Europeu?”), um estudo sobre o Programa Erasmus, uma entrevista com o Embaixador da Sérvia, que salienta ser a integração na União Europeia o objectivo número um do seu país, e trabalhos sobre as comunidades étnicas nos EUA, a mulher no Afeganistão, a crise financeira, a África do Sul, que vai receber o campeonato do mundo da Federação Internacional de Futebol, mas onde as consequências sociais deste importante evento estão ainda por determinar, os desafios ibero-americanos e fontes de energia alternativa. Também integra abundante informação internacional.

Aguardada com alguma expectativa, é justo felicitar os promotores da iniciativa e o seu corpo de colaboradores e desejar à revista e ao seu director um percurso de sucesso.
 
Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau

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