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quinta-feira, fevereiro 17, 2011

A MULHER NO AFEGANISTÃO VERSUS EDUCAÇÃO



Sukaina, uma jovem mulher oriunda de Kabul, relata através da sua experiência, os diferentes papéis que a mulher afegã tem desempenhado numa sociedade repleta de atribulações, desde os tempos em que as mulheres tinham acesso à educação até ao momento em que os seus direitos mais básicos lhes foram negados.

Pertence a uma família, em que a prática do Islão não era vista como necessária, as mulheres não se cobriam e nem eram penalizadas por isso porque na capital do Afeganistão, nessa altura, vivia-se sob a influência do comunismo, onde imperava a liberdade. Parcialmente criada em Londres, cidade onde se encontra a residir, começou a compreender a sua religião por outra perspectiva.

 “Qual é a verdadeira religião? O que é que o Islão realmente ensina? No Afeganistão nós temos muita influência religiosa e temos muita influência cultural, por vezes é difícil distinguir, o que é o Islão e o que não é. O Islão não é duro, o Islão não proíbe as mulheres de se educarem, mas também não permite que se vá a um outro extremo, que é tirar tudo ou agir como se as mulheres fossem homens.

Com a minha vivência em Londres, comecei a compreender melhor a minha religião porque quando se está dentro de um quadro, não se consegue ver bem as coisas ao redor, mas quando se está fora, consegue-se ver a imagem do quadro mais claramente”, disse Sukaina.

Foi-lhe possível o contacto com todo o tipo de mulheres afegãs na sua província de Kabul, entre estas; conservadoras, liberais, tradicionais, mulheres muito modernas, outras não tão modernas. No que concerne às mulheres da sua família, entre duas a quatro décadas atrás, estas tiveram pleno acesso à educação, chegando mesmo a frequentar a universidade.

Estas mulheres perseguiam as suas qualificações, não como uma necessidade para ingressar em alguma profissão, uma vez que pertenciam a uma família com posses, simplesmente existia entre elas a noção que a educação é algo de bom, algo que lhes permite destrinçar entre o certo e o errado.

O casamento nesta família, ao contrário do caso de muitas mulheres afegãs, não acontecia numa idade muito jovem, sempre na casa dos vinte anos.

Sukaina refere que as mulheres da sua família desenvolveram um carácter muito forte, tendo aprendido a não serem completamente dependentes dos maridos, resultado do acesso à educação que estas obtiveram no passado. Tinham uma vida de casa normal e muitas delas tinham entre quatro a seis filhos para criar. O que as distinguia era o facto de terem tido a possibilidade de se instruir.

Naquele tempo, ao contrário do que acontece presentemente, a religião não tinha qualquer influência no modo de vida desta família de Kabul, no entanto, em muitas outras províncias do Afeganistão, precisamente na mesma altura, as mulheres afegãs tinham a religião muito mais presente nas suas vidas, cobrir a cabeça e o corpo, não só era uma obrigação da religião, como também era obrigatório em termos da sociedade.

Sair de casa sem usar hijab constituía motivo suficiente para serem atacadas, mas o mesmo não acontecia necessariamente em Kabul, onde as tias de Sukaina chegaram a usar mini-saias.

Em Kabul, experimentava-se uma grande sensação de liberdade, proporcionada pelo regime comunista vigente na altura, resultado da influência da União Soviética. “Especialmente nos tempos do comunismo, tudo o que as mulheres desejavam era mais liberdade, chegando até mesmo a ocupar lugares governamentais”, disse Sukaina.

Esta família viu-se obrigada a abandonar o Afeganistão em 1991, precisamente na manhã depois do dia em que os Mujahideen ocuparam Kabul. Cerca de duzentos Mujahideen passaram a noite na casa de Sukaina, na manhã seguinte a sua família foi mudada para o Paquistão, uma vez que o seu pai tomou consciência que a guerra iria estalar.

Os Mujahideen, que faziam parte da aliança do Norte, distinguiam-se dos Taliban por serem mais modernizados, mas ao mesmo tempo também eram muito religiosos. A aliança do Norte era maioritariamente constituída pelo grupo étnico Tajik, enquanto os Taliban, na sua maioria eram pertencentes à etnia Pashtun.

 Os Taliban são uma organização política, que esteve no poder por algum tempo no Afeganistão. Regem-se por um sistema de vida e por uma ideologia muito estritas em termos do Islão. Segundo a opinião de Sukaina, este grupo político fez um bom trabalho em muitas áreas, mas usou de técnicas erradas, como sendo o uso de armas para disciplinar o público, acrescentando ainda, que um dos ensinamentos do Islão diz que ninguém se torna religioso através do uso da força.

 “Se uma mulher fosse vista na rua sozinha, os Taliban iriam questioná-la de imediato, iriam querer saber qual a razão de ela estar ali, se ela não apresentasse nenhuma razão, então levava uma paulada”, disse Sukaina.

Durante o tempo dos Taliban muitos aspectos da vida em sociedade entraram em declínio. Conta que apesar dos Taliban, terem um pensamento extremamente religioso, todas as mudanças ocorridas eram mais relacionadas com influência política do que propriamente influência religiosa.

Esta jovem afegã diz discordar com muitos aspectos da ideologia dos Taliban, mas também considera que estes trouxeram muitas coisas positivas para o país, contribuindo para a redução da prostituição, consumo de álcool e abuso em termos gerais.

Tais aspectos negativos da vida em sociedade voltaram a ser mais proeminentes desde a chegada dos americanos ao Afeganistão. “Em termos da religião, eu penso que esta está a entrar em baixa nos dias de hoje, recentemente eu li numa publicação que mais de quinhentas casas de prostituição foram abertas só em Kabul, beber álcool tornou-se banal, a produção de drogas está extremamente elevada.

 Aliás, isto são coisas proibidas pelo Islão, mas estão à disposição em maior quantidade desde a chegada dos americanos”, disse Sukaina.

A sede do poder levou a que milhões de pessoas ficassem com as vidas destruídas, sendo que uma dessas nefastas consequências foi o facto da educação ter entrado em completa ruína, especialmente a educação das mulheres. “Devido aos políticos e ao facto de que toda a gente quer estar no poder, só por causa disso, milhões de pessoas têm morrido, inúmeras pessoas ficaram na miséria, as estruturas da educação desmoronaram-se por completo”, refere Sukaina.

As mulheres em Kabul não queriam usar hijabs, estavam a tornar-se extremamente modernizadas e liberais, sendo que perante esta situação, os Taliban decidiram proibir as mulheres de frequentar a escola, a determinada altura este regime político também decide banir as mulheres de saírem à rua, a não ser acompanhadas por um familiar do sexo masculino.

Para Sukaina, parece não existir um meio-termo no seu país, sobretudo em Kabul, onde se vai de um extremo a outro. “Eles nunca conseguem atingir um verdadeiro balanço, onde exista prática religiosa e consequente paz”, disse Sukaina. Considera que apesar do flagelo da guerra, o povo afegão, naquela mesma altura conseguia ser mais feliz fora de Kabul, com os seus valores tradicionais, algo que as mulheres da capital afegã recusavam considerando serem valores antiquados.

Estes aspectos antagónicos têm lugar neste país, devido às diferentes províncias que o compõem, as quais oferecem sempre uma perspectiva singular, diversas experiências, sensações e ideologias.

Indigna-se contra o que diz ser o pior tipo de opressão, realizado sobre as mulheres afegãs nos dias de hoje, ou seja, a falta de acesso à educação. Muitas famílias afegãs preferem que os rapazes frequentem a escola, enquanto que as raparigas ficam em casa sem saber escrever nem ler. Também existe opressão sobre as mulheres, mas só pelo facto de estas serem do sexo feminino são consideradas quase inúteis, uma vez que um rapaz pode trabalhar fora e ajudar a sustentar a família.

As mulheres afegãs são também extremamente corajosas, pois devido às circunstâncias da guerra, milhares de afegãs tornaram-se viúvas, muitas delas com dez crianças para criar. Estas pessoas vivem em extrema pobreza sem dinheiro para comprar comida.

Esta jovem mulher afegã gostaria de ver a situação do seu país alterada, sobretudo em termos da educação. Acredita que se uma mulher obtiver instrução a próxima geração virá a ser beneficiada. “Uma mãe instruída tornar-se-á a primeira educadora de sempre para uma criança”, disse Sukaina.

Algumas mudanças têm ocorrido neste campo nos anos passados, onde foram abertas muitas escolas, algumas com acesso às raparigas. Estão também em curso novos projectos em todas as províncias do Afeganistão, não só em Kabul.

Sukaina está com um pensamento positivo em relação ao crescimento na área da educação e acredita que o facto de proporcionar às mulheres afegãs pleno direito à educação irá culminar no aumento da sua auto-estima e consequente desenvolvimento do seu país.

Vanda Caldeira

Este texto foi publicado na edição nº0 da revista Raia Diplomática, no dia 28.11.2009

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