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quinta-feira, fevereiro 17, 2011

DESAFIOS IBERO-AMERICANOS


Este ano, Portugal teve a excelente ideia de propor que os Governos discutam o tema da inovação. A inovação e o conhecimento. Dois assuntos centrais que vão marcar o espírito desta Cimeira do Estoril.

Se algo sabemos com certeza é que o mundo que vem aí não será como desejamos. Tudo será distinto: a sociedade, a economia, as relações internacionais.

Não digo que se vão produzir mudanças dramáticas que se sucederam nos anos trinta. Está em marcha um novo modelo económico, relacionado em primeiro lugar, com a consolidação das economias emergentes.

 Hoje em dia, nenhum país do mundo, por mais forte que seja pode por si só resolver os fortes desequilíbrios internacionais ou regular as finanças internacionais.

Os países desenvolvidos têm que partilhar hoje à mesa com os novos estados emergentes: China, índia, Brasil, México, Rússia. Isso significa que o poder económico mundial vai ser muito mais partilhado como nunca antes.

Penso também que tenhamos de ter uma maior presença de políticas públicas. Se é assim, devemos dotar-nos de um melhor Estado, porque o que temos, estou falando da nossa região, não resulta suficiente para atender às solicitações de mais peso na condução da economia.

A transformação da arquitectura financeira faz-se quando as coisas estão realmente a quente. Uma vez que se vão solucionando, muito dificilmente resulta que exista vontade política de levar em diante uma reforma.

Desta vez o barco partiu na reunião do G-20 em Washington, embora tenho algumas dúvidas que o clima de mudança que prevaleceu a esse encontro, e de seguida em Londres, se mantenha em frente.

Dá-me a impressão que se tenha esfriado um pouco. Pode ser uma sensação térmica, mas tenho a experiência de que, quando as novas condições económicas melhoram, a vontade de mudar debilita-se. Espero que isto não ocorra.

O mundo deve avançar para uma ordem internacional que reconheça o peso relativo dos países emergentes em construção económica, com novos sistemas reguladores e, certamente, novos sistemas de supervisão, e com o fortalecimento do Fundo Monetário Internacional.

Não há outra alternativa que outorgar ao Fundo o papel de grande banqueiro central do mundo. Além disso, há que reforçar os Bancos de Desenvolvimento e, neste sentido, se temos feito tanto por resgatar a banca privada, devemos dotar os Bancos de Desenvolvimento (estou a pensar no BID e no Banco Mundial) de recursos para ajudar os países a sair da crise, sobretudo, a competir nos mercados internacionais.

Teremos que ver como montar o novo multilateralismo. O G-20 converteu-se numa realidade dinâmica, mas há que dar alguma forma de capacidade a outros países para que se sintam participantes num mundo que a todos pertence.

É um assunto complexo. Ninguém pode ignorar a importância que um grupo de países que representa 85% da comunidade mundial esteja a funcionar como está, mas há que procurar alguma maneira de envolver a totalidade dos Estados, e aí entram algumas iniciativas que estão em marcha.

A primeira inovação vai por este caminho: o da construção dos processos económicos internacionais. A segunda refere-se aos modelos de desenvolvimento. Se olharmos para trás, no que repousou o modelo na América Latina? Sobre matérias-primas baratas e mão-de-obra barata. Isso deu lugar a um crescimento económico, mas não de alta qualidade; o crescimento de alta qualidade produz-se se formos capazes de acrescentar às matérias-primas abundantes e à abundante mão-de-obra uma maior qualificação do trabalho para poder oferecer uma maior competitividade, melhor inserção nas redes internacionais de valor, melhores salários e melhores níveis de vida.

 Aqui nasce a necessidade de inovar. Inovar em um sentido - e a Cimeira Ibero-americana assim o entende – que se vá mais além da introdução de elementos técnicos; inovar no sentido de efectuar mudanças de procedimentos, de estruturas empresariais, de modelos de organização, de formas de abordar o comércio internacional.

Enfim, um conceito global de inovação, que inclua inovar no sistema da gestão pública. Há que introduzir novos critérios para a atribuição de recursos em matéria de saúde e de educação.

A inovação entendida como uma mudança, apoiada no conhecimento, na maneira de fazer as coisas. Por isso a Cimeira trata da inovação e conhecimento.

Para levar adiante este esquema, há que tecer uma aliança entre os grandes actores: o Estado, empresas privadas e nos âmbitos académicos.

A dita trilogia é que vai dar respostas aos desafios, e sobre este princípio assentam os trabalhos de preparação da nossa Cimeira, que tem lugar uns dias antes da reunião mundial em Copenhaga, sobre as mudanças climáticas.

Em último ponto, neste contexto, quero referir-me à Ibero-américa, como região e como comunidade.

Hoje mais acredito que a América Latina tem à sua frente uma grande oportunidade de levar adiante uma mudança profunda e conseguir um papel relevante no panorama internacional.

Enrique V. Iglesias é o Secretário-Geral Ibero-Americano

Este artigo de opinião foi publicado na edição nº0 da revista Raia Diplomática, no dia 28.11.2009

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