Número total de visualizações de página

terça-feira, fevereiro 22, 2011

CRISE FINANCEIRA OU CRISE DE IDENTIDADE?




O Japão soube misturar o passado e o futuro, a tradição e a inovação.

Apesar desta associação, a instabilidade económica e financeira não deixou de lado uma das maiores economias a nível mundial. A conjuntura económica negativa já levou ao compromisso entre a China e o Japão para uma cooperação com um único objectivo: impedir que a crise afecte, ainda mais, estas duas potências.

No Japão, as transformações sociais são um reflexo da crise económica e, no último ano, estas alterações multiplicaram-se.

A filosofia monozukuri - criar coisas - usada, por exemplo, pela Toyota, é um ponto basilar da identidade do Japão.
O monozukuri é a arte de criar com orgulho e inovação produtos de excelência, utilizando os conhecimentos de vários anos, conciliando o novo e o velho.

Os japoneses não imitam, aperfeiçoam os produtos ocidentais, e conservam os valores sociais tradicionais perante a inclusão das novas tecnologias e da implacável globalização no quotidiano nipónico.

Mas nem a inovação tecnológica impediu o Japão de acompanhar a tendência negativa dos mercados internacionais.
Catalogado como um dos países mais prósperos, em finais de 2008, a crise financeira que assolou o Japão é já considerada por muitos economistas, inclusive pelo próprio Ministro da Economia do Japão, Kaoru Yosano, como a pior desde 1945.

Actualmente, o Japão é um dos países mais endividados do mundo, com uma dívida que atingiu 217% do Produto Interno Bruto (PIB),
em Julho. Nos anos 70 o mercado externo passou a ser o principal motor de crescimento da economia japonesa.

As indústrias poluentes, com necessidade de operários pouco qualificados, foram deslocadas e o Japão tornou-se no maior estimulador da economia asiática.

Agora, o decréscimo nas exportações (menos 35,7% em Junho comparartivamente com o período homólogo de 2008) motivou as demissões na indústria, sobretudo na automóvel, onde estão os emigrantes brasileiros, peruanos, chineses, filipinos e tailandeses. Tóquio, Osaka e Nagóia recebem estes emigrantes, alguns sem-abrigos, que procuram trabalho temporário.

Em Junho, o desemprego atingiu os 5,4%. Os japoneses vão menos aos restaurantes. A crise económica devolveu o costume de preparação de marmitas e as vendas nos supermercados subiram. Os jovens entre os 15 e os 24 anos são os mais afectados.

O primeiro-ministro Taro Aso lançou em Março um programa para os jovens desempregados ajudarem no cultivo de terras. São poucos os protestos na rua mas o Partido Comunista Japonês tem recebido muitas pessoas que querem sindicalizar-se e o bairro de Koenji, em Tóquio, tornou-se no lugar de encontro de uma juventude mais reinvidicativa.

É um pequeno mundo que avança num país com um sistema educacional baseado em valores e disciplina. O sentido de responsabilidade é incutido desde muito cedo com as crianças a contribuírem para a limpeza das salas de aula. O kotowaza (provérbio japonês) “O génio manifesta-se na infância” é usado ao limite. O índice de suicídio infantil é dos mais elevados.

O Japão experimentou, nos anos 90, o desemprego e o endividamento, que tal como agora, são consequências da dependência do mercado externo, sobretudo dos Estados Unidos da América. As mudanças económicas trouxeram alterações sociais. Os especialistas notaram que os jovens deste país, pautados por períodos de férias curtos, pouco absentismo e horário laboral elevado, já não sustentam o vício do trabalho.

Agora os jovens que procuram trabalho preferem os serviços públicos à manufactura envolta no monozukuri, o principal sector de actividade japonês. Confirma-se uma crise de identidade no país, numa altura em que o envelhecimento da população impossibilita a continuação da mão-deobra barata.

Factos como o aumento de processos judiciais movidos contra as empresas significam a perca da tradição do trabalhador leal ao empregador. Mas os lucros da fabricante de automóveis Honda, no primeiro trimestre, mostram como as bases sólidas nipónicas poderão tirar o país da crise.

Este texto foi publicado na edição nº0 da revista Raia Diplomática, no dia 28.11.2009

Sem comentários: